Os desafios da escola 2.0
É necessário criar um projeto pedagógico mais conectado às novas tecnologias
Por Thais Paiva — publicado na edição 77, de junho de 2013
Cada vez mais cedo, computadores, celulares, tablets e outros aparelhos
digitais fazem parte da vida de crianças e adolescentes brasileiros. No
País, a idade do primeiro acesso à internet é, em média, entre 9 e 10
anos. Metade dos jovens afirma conectar-se à rede diariamente. Os dados
são da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2012, elaborada pelo Centro de
Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (Cetic.br),
que analisou o uso da web entre jovens de 9 a 16 anos e seus impactos
sociais.
“A rapidez com a qual crianças e jovens estão obtendo acesso a
tecnologias virtuais, convergentes, móveis e interconectadas não
encontra precedentes na história da inovação e difusão tecnológica”,
indica no estudo Sonia Livingstone, diretora da rede EU Kids Online e
professora no Departamento de Mídia e Comunicação da London School of
Economics and Political Science. “Essas mudanças apresentam aos pais,
aos professores e às crianças o importante desafio de adquirir, aprender
a usar e definir objetivos para o uso da internet em suas vidas
diárias.”
Nesse panorama, as duas principais instituições responsáveis pela
formação das novas gerações – família e escola – ganham
responsabilidades imensas, mas ainda se encontram perdidas diante dos
desafios da inclusão e orientação digital. “Elas estão perplexas ante
crianças e jovens cada vez mais informados, participantes e conscientes
(mesmo que confusamente) de seus direitos, além de serem digitalmente
competentes e de se mostrarem totalmente à vontade diante dessas novas
tecnologias”, aponta Maria Luiza Belloni, doutora e mestra pela
Universidade de Paris-Sorbonne e pós-doutora em Comunicação Política.
No ensino, fica evidente o descompasso entre o que os alunos têm nas
mãos e a capacidade da escola de usar as novas tecnologias com
propósitos pedagógicos. “Enquanto os alunos levam seus celulares para a
sala, os professores muitas vezes não têm à disposição computadores e
conexão para a realização de tarefas básicas como a busca de informações
na internet”, alerta Maria Paulina de Assis, doutora em Educação pela
PUC-SP.
Além disso, a falta de infraestrutura tecnológica, dificuldades de
gestão escolar e problemas com a própria ação pedagógica, a dificuldade
dos professores para adotar novas tecnologias, aparecem como grandes
desafios. No ensino público, destaca-se também a fragilidade da
implementação das políticas públicas. “A escola pública tem sempre
projetos a serem implementados, e a inserção das novas tecnologias para o
uso pedagógico acaba sendo muitas vezes atropelada por necessidades
mais imediatas. Dessa forma, a presença de tecnologias na escola acaba
sendo geradora de problemas e não de soluções”, destaca Maria Paulina.
O estudo TIC Kids Online Brasil 2012 também mostra como as novas
tecnologias e a internet podem se transformar em potencial para
inovações educativas, trazendo mais motivação para a aprendizagem na
sala de aula e além dela. Para isso, entretanto, fica clara a
necessidade de uma abordagem pedagógica que extrapole o uso dessas
tecnologias pelos professores apenas como recurso para estratégias
didáticas convencionais.
“A inclusão digital de jovens não depende da aplicação da tecnologia a
políticas pedagógicas somente. É possível até mesmo dizer que nisto não
há muita diferença entre escolas públicas e privadas, pois as privadas
podem até estar mais à frente no sentido de ensinar os alunos a
manipular o computador, mas também não utilizam os recursos digitais
para criar novas propostas de ensino, como utilizar um game para
resolver uma equação de segundo grau”, explica Regina de Assis, mestre e
doutora em Educação pela Universidade de Harvard e pela Universidade de
Colúmbia e consultora em mídia e educação.
A pesquisadora Ellen Helsper, doutora da London School of Economics,
chama ainda a atenção para o que considera um equívoco das escolas, que é
fazer uma divisão entre o universo online e o mundo real. “Esses dois
campos são uma coisa só: a vida do aluno. Na escola, os piores lugares
para se aprender a mexer no computador são as salas de informática,
justamente porque configuram ambientes não familiares, estranhos,
separados da vivência cotidiana dos jovens.”
Segundo Maria Paulina, as novas tecnologias devem ser integradas ao
currículo por meio de uma pedagogia voltada para o aluno, tendo as
motivações para a aprendizagem como centro da atenção do professor.
Dessa forma, as dificuldades do professor em apropriar-se das novas
tecnologias deixam de ser um problema, pois ele passa a atuar mais como
mediador e orientador do conteúdo obtido através dessas interfaces.
“Assim, o professor fica mais atento aos objetivos de aprendizagem, à
provisão de informações e orientações quando necessário, ao
acompanhamento dos resultados, à avaliação, à observação de
comportamentos e atitudes dos alunos que necessitam de intervenção,
tendo um papel mais de mediador da aprendizagem do que de transmissor de
conhecimentos”, explica.
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